Páginas depois de ontem

25 de maio de 2012

Corra corra corra pra algum lugar seguro, sem chegar a lugar algum que não seja do lado de dentro da sua cabeça de Homo Sapiens Sapiens


A mulher-melancia, o créu, o Michel Teló - que beleza, ai se eu te pego! – e ululante o pancadão que bate bate bate, marretando o peito, os miolos, transformando cérebros em mingau de aveia vencida, estuprando o conceito de cultura e o reduzindo a minúsculos fragmentos, abrindo as cabeças das pessoas como saca rolhas e instalando-se como aquele conhecido oitavo passageiro. Nenhuma conexão aparente com Kurt Cobains gritando suas angústias e indignação no rádio, ou os poetas Renato e Cazuza e suas letras e canções instigantes e intensas. Tudo isso vai ficando cada vez mais distante e esquecido. 

E o big brother, meu irmão
zão, que maravilha, ensinando a todos nós como arrastar a barriga na lama para encher o bolso de grana fácil, masturbar o ego ao ser conhecido e admirado ser ter realizado nada de verdadeiramente útil. Ou nem isso. Enquanto um antes-disso-tudo-um-zé-arruela-qualquer ganha  computadores, dez mil dinheiros e uma moto expondo-se ao ridículo, tem gente que nem bom dia recebe do porteiro, apesar da caixinha de natal, basta imaginar o resto que o buraco é mais embaixo, BEM mais embaixo. 

Mas
a realidade mesmo é que ninguém minimamente Humano tem paz num mundo como esse que aí está, no qual estamos, eu penso enquanto  me obrigo a ler a capa do jornal de hoje (o de ontem também fiquei só na capa), então me percebo boiando na superfície dessa fossa sanitária em que vivemos, mas por mais que me esforce em agradar a gregos e troianos, não tenho nenhuma vontade de mergulhar nesse poço.

Creio que vamos nos tornando cada vez mas lentos frente à crescente velocidade dos fatos e informações:  talvez a quantidade de serotonina ou outro neurotransmissor advindo de empréstimo tenha cozinhado esses mesmos miolos que o resto da humanidade luta pra manter em desuso frequente. Pode ser apenas uma impressão passageira, que desparece bem aos poucos...

Sim, eu sei que devia estar trabalhando como todas as outras formigas do formigueiro, mas estou sentado de frente à máquina que devora a nós todos, tentando manter o pouco que resta da minha sanidade, questionando, perpetuando essa ação que todos fomos inicialmente projetados para desempenhar a fim de nos aprimorarmos como seres, ao invés de me permitir ser preso à normalidade limitante imposta pelo mundo. Confuso? Você ainda não viu nada. Pode começar pegando um ônibus superlotado a caminho do trabalho mal-remunerado ou contraproducente em relação à sua pessoa, num dia de calor insuportável. Tudo incomoda, enjôo e náuseas tipo assim retumbantes.

Eu vou lá e volto logo.
Aonde eu vou? Ao Inferno, obrigado por perguntar, espera um pouco que na volta passo pelo Purgatório e te trago um souvenir


Tsc tsc, que coisa feia recusar um presente oferecido de coração... então segura essa: aí vai mais daquelas velhas reclamações e demonstrações de amargura, angústia e outros sentimentos desagradáveis que insistimos em evitar, ou fazemos de conta que nada disso nos incomoda ou frustra. Dizem por aí  que é fácil de pegar o jeito da coisa toda e que não se pode deixar abater. Mais fácil do que falar, não deve ser fazer, é impossível. É bem verdade que o aproveitamento desempenhado dentro do meu crânio é bastante flutuante, com picos numa razão totalmente non sense. Talvez para você, mas, pra mim, eu faço bastante sentido não fazendo sentido algum. A ausência de uma coisa a reafirma. Quer um exemplo bem simples? Saudade. Faz sentido, não faz, sem a intenção ou a obrigação de fazer?

Falando em sentido, Sempre aparece alguém perguntando Mas qual o sentido da vida?

Ok. 


Essa pergunta normalmente é retórica. Mas dá pano pra manga. Achar que podemos desvendar um mistério desse tamanho e complexidade com uma ou duas frases-feitas seria uma dose exagerada de ingenuidade, romantismo ou o quê?

Não faço idéia.

Vamos falar de amenidades
, isso mesmo: a-me-ni-da-des; que tudo fica  bem. Tudo bom. No bem-bom. Amenidades são essa conversa mole pra boi dormir que sempre vai no sentido oposto às coisas sérias e profundas  que têm a ver comigo ou você. Segundo o meu moderno dicionário eletrônico Houaiss – isso porque tenho uma queda por definições sucintas – amenidades são temas agradáveis e leves. Desses que todo mundo é chegado. Comprendre vous?

Vou avisando que dou voltas e voltas. Posso até perder o fio da meada, afinal. Não fique entediado, leitor. Vamos em frente; eu, você e o mundo em movimento. De elipse: como tudo no Universo sugere.

Creio que tudo que existia em eras antes de nós que aqui estamos, era diferente. Era preto no branco. Éramos nós contra eles e eles eram bem fáceis de identificar. Não éramos burros, distraídos, não fugíamos tanto e nem disfarçávamos. Valia a pena lutar. Ou talvez fosse a mesma bosta fumegante de hoje, e eu que não estava lá pra ver a real peguei o bonde andando e idealizei em cima de algo que só pude passar os olhos de relance, ou avistar bem de longe, fora de foco?

É tudo a mesma coisa na minha visão essencialmente pessoal do quadro: A mim me parece que hoje, agora, perdemos a grande guerra, nós é que somos os nossos próprios e – pasmem – desconhecidos inimigos, nós é que somos o mal, por abrirmos as portas, fecharmos os olhos, não dar, não fazermos por onde dar conta dos fatos reais: que nos abandonamos completamente rumo à decadência absoluta da espécie, à mesquinharia, ao pedantismo, às perversões, ao invés de abrirmos os olhos e lutar por seguirmos um caminho à primeira vista mais escuro, mais tortuoso, perigoso, sem sombra de dúvida, mas que é trilhado antes por uma escolha ativa do que um largar de mão resignado; fato esse que nos põe à deriva, à mercê nossa consciência humana rejeitada, manifestada através de impulsos inconscientes: auto-sabotagem; auto-destruição.

Encaremos o fato de que esta bela porém insensata nau construída por nossas mentiras carismáticas e nossa dissimulada megalomania não é o resultado perfeito de nosso grandioso intelecto de Homo Sapiens Sapiens; pelo contrário: é enormemente atraente aos olhos e por isso nada menos que  monumental, mas seu radiante casco de ouro adornado por pedras preciosas não possui resistência contra a força de uma tempestade no mar profundo, escuro e infinitamente maior e mais denso que é o Universo ao redor e afunda a passos cada vez mais largos.

O projeto inicial não foi atingido por conta de nossa própria soberba e arrogância de Homem que sabe que sabe,  mas curiosamente desconhece o fato de que saber-se sabedor de TUDO é a mesmíssima coisa que não saber efetivamente de NADA. Esse desvio absoluto do caráter do projeto resulta nessas nossas vontades cada vez mais estranhas, como conceber como normalidade barbaridades cada vez mais escabrosas, violências hediondas contra nós mesmos, bastando que algo assim aconteça mais de uma vez. 

É a represália silenciosa, imimente e constante de nossa contraparte evoluída – a consciência universal – que não por seu caráter é menos Humana -  que quer nos foder bem forte e bem fundo, devagar e sem nos mostrar sua face e mãos.

E nós,  os poucos remanescentes do projeto original, que apenas intuímos parte da essência, somos apanhados nesse fogo-cruzado existencial, vivendo entre a cruz e a calderinha, pulando da frigideira para o caldeirão.

O única Verdade absoluta que mora nessa tragicomédia universal é que Tudo tem um Começo e tudo deve ter um Fim. Uma linha que é puxada constantemente até que o carretel se desenrole completamente. O que supõe-se crucial não é somente o fim do caminho, mas a forma como é realizado seu percurso. Nem Começo; nem Fim: mas o Meio. Meio torto, mas sempre em frente. De algum jeito.

Mais um turbihão num dia após vários outros dias secos e estéreis de idéias e inspirações e perda de tempo. Escrevo assim mesmo e dou voltas até você ficar t
ão confuso que não tenha alternativa a não ser continuar no caminho: Não há regras como que se tudo estivesse escrito em pedra e não possa ser alterado.

Não existe ser humano perfeito que caminhe sobre esse mundo
de armadilhas e ilusões, mas parece que esperam sempre que sejamos o ideal inventado e imposto por gente que olha através de janelas de 20 metros de largura sem nada enxergar.

São as velhas dívidas cobradas sempre a curto prazo sem esquecer, é claro das altas taxas de juros. O banco quer que seu dinheiro, seu tempo, sua vida e a sua alma no fim das contas. O dinheiro move o mundo, girando engrenagens de metais preciosos demais para botarmos nossas mãos. É a humanidade mostrando o que tem de melhor, mas apenas para quem pode pagar melhor.

Novas reclamações sobre velhos problemas. Eu fico por aqui pensando que não terminei essa joça direito. Não sou bom com finais mesmo.


13 de maio de 2012

Born into this - Charles bukowski


12 de maio de 2012

De olhos bem abertos








Levanto a cabeça e o Mundo impõe sua presença  sobre este meu ser estropiado, meus olhos de pupilas castanho claro, rasgados, ABERTOS de súbito:  A manhã os invade à força, rasgando as cortinas de todas as janelas e de minhas pálpebras com suas luzes,  com a intenção de forçar esta mente que tenho – e que, apesar de todas os sinais e pistas recebidos insiste em  beirar uma mesquinhez incapacitante apenas almejada atingida  acolhida escolhida  por nós, os humanos - a expandir-se a um ponto além de qualquer limite previamente alcançado. A ruptura de todas as válvulas sensoriais que sugerem segurança e sobrevivência do ser auto denominado homo sapiens sapiens, que no auge de sua evolução preciosa parece que não quer mesmo é saber que não sabe de nada.

O impulso pristino em direção ao zênite multicor de todas as idéias que sempre e jamais existiram. Resistir a esta força universal me parece ser  um instinto básico que em minha experiência  apenas resulta nessa DOR invisível silenciosa galopante fina, com a mesma e ainda maior intensidade de centenas de pequenos choques agudos incandescentes por todas as partes do meu corpo;  este corpo de pele e ossos carne  sangue  e secreções e impulsos elétricos-nervosos que envolve esta entidade imaterial e atemporal que conheço como minha mente, mas ainda assim insiste em manter-se distante, como uma canção bonita assoviada por um motorista de ônibus anônimo, que pára do lado da sua janela suja e emperrada  no diário e massacrante caminho para o trabalho;  como um gato preto misteriosamente provocador que passa alheio no recosto do sofá e roça de leve na sua cabeça, sem dar importância alguma ao contato.

A ressaca desta manhã febril  - a mais nova depois de zil outras - esconde e ainda assim me evidencia  essa tão estranha e teimosa insistência em rejeitar tão grandiosa e  eminente Realidade – a opressão fria invisível deste caminho labiríntico sem começo nem fim  no qual todos nós somos lançados por sabe-se lá que força, deus ou princípio conhecido, para assumir uma existência desprovida de qualquer propósito ou sentido maior do que a perpetuação desajeitada e caótica de nossa espécie,  a manutenção desse valiosíssimo posto de ”Topo da Cadeia Alimentar” que nos torna tão complexamente importantes,  não obstante de tudo que vive e deixa de viver serve de alimento à subestimada forma de Vida conhecida pelo nome de Bactérias– que, independente do fato de serem infinitesimamente menores e menos complexas que nós originaram e interpretam o papel principal da existência em nosso adorável planeta há pelo menos 3,8 bilhões de anos.

Maaas isso é história antiga, que não pode ter valor algum para o pseudo-pensamento do Mundo que não se separa do Homem contemporâneo, status eterno esse de surgir após tudo que já existiu. O que passou, passou, águas passadas não movem  moinho, esta análise crucial de todas as coisas é nossa especialidade : é ponto-de-vista e não deixa em momento algum transparecer para qualquer ser racional que ela na real realidade  não é nada mais que a vista-de-um-ponto, e seguimos com a certeza que sabemos tudo, fazemos tudo, e que se há algo não pode ser vendido/ comprado, é porque não existe ou ainda não foi tocado por nosso imenso intelecto ou nossas habilidosas mãos.

Tudo está sob controle: o Fim do Mundo não vai acontecer, foi previsto por uma civilização há muito morta e tecnologicamente atrasada; que realizava sacrifícios humanos para apaziguar seus deuses, que eram apenas fruto de suas patéticas tentativas de humanizar a ação da natureza – atribuindo a ela aspectos da vontade humana, ainda que em roupagem divina. Afinal esta civilização fossilizada ficou soterrada nas areias do tempo, pois nenhuma delas dominava o mundo, a natureza e o conhecimento tecnológico como nós fazemos hoje, não desviavam rios quilômetros de seu curso natural, não escavavam montanhas, não impunham sua vontade sobre a natureza e suas vicissitudes, eram servos e não senhores, portanto suas previsões não passam de tentativas desesperadas de manter seu status servil diante dos mesmos elementos que nós controlamos tão bem em nossos dias. Nós, o Homo Sapiens Sapiens, o auge evolutivo, os arquitetos do Novo Mundo.

A Razão, o canal racional desenvolvido durante séculos após termos abandonado as cavernas e a escuridão não mais questiona suas origens; pelo contrário,toma para si o poder de explicar a tudo, ignorando – e frequentemente  destruindo  - o que não pode ser explicado dentro do seu plano cartesiano, essencialmente limitante e discriminatório. Varre-se a coisa para baixo do tapete, se tiver um volume apropriado. Mas se toma dimensões maiores, deve ser destruída, não mais em massacres públicos nos coliseus da vida, mas de forma sutil, quase invisível. Dividir é conquistar. Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado.

Eu vejo tudo isso e então me deparo com um céu azul,  por onde navegam sem pressa nuvens brancas pesadas de chuva iminente e volto ao passado, um passado de tardes em que tudo era novo e mágico, luz e som e o sim para todas essas coisas não era difícil de pronunciar.

Era um tempo diferente de todos os que depois vieram, uma época longínqua de paz e a esperança de que a Vida acontecesse, cumprindo todas as promessas não pronunciadas por seus lábios cintilantes multicor. Ela sorria para mim naquelas tardes. De repente, estava tudo ali, num sussurro repleto de significados, esperando que eu decifrasse seu enigma. Enigma esse que nenhuma razão pode explicar.

Depois de toda essa loucura, penso que a Vida é SUPERAÇÃO...


1 de abril de 2012

Dream Brother



Mergulhando atrás de Jeff Buckley pela net, eis que me surpreendo ao encontrar um vídeo oficial perdido de uma de suas mais belas canções: Dream Bother, lado B de seu primeiro e único disco de estúdio ( aprovado por ele; o segundo estava em vias de regravação quando Jeff morreu acidentalmente no mississipi).

Se você conhece Radiohead e muse, até mesmo o Coldplay ( que saiu do Travis e copiou descaradamente o Radiohead pós OK Computer), saiba que estas bandas não seria metade do que são sem a influência deste único disco desse artista máximo, com voz de anjo atormentado, lançado em vida.

Quem quiser saber mais sobre Jeff Buclkey, clique aqui.

Leia a letra, um verdadeiro poema-canção.

DREAM BROTHER



There is a child sleeping near his twin

The pictures go wild in a rush of wind
That dark angel he is shuffling in
Watching over them with his black feather wings unfurled



The love you lost with her skin so fair
Is free with the wind in her butterscotch hair
Her green eyes blew goodbyes
With her head in her hands
and your kiss on the lips of another
Dream Brother, with your tears scattered round the world.



Don't be like the one who made me so old
Don't be like the one who left behind his name
'Cause they're waiting for you like I waited for mine
And nobody ever came...



I feel afraid and I call your name
I love your voice and your dance insane
I hear your words and I know your pain
Your head in your hands and her kiss on the lips of another
Your eyes to the ground
and the world spinning round forever

Asleep in the sand with the ocean washing over...